14 de novembro de 2009

Boto fé!


Participei da Picareta Cultural, que aconteceu em Paraty na Flip do ano passado. Boto fé que a Picareta 2009, na Lapa, vai ser arrasadora! Quem estiver no Rio não pode perder.

11 de novembro de 2009

Cidades Marinhas: Solidões Moradas


Dennis Radünz recolheu 1/7 das crônicas que produziu para o Diário Catarinense em seus quatro anos de coluna e lança agora Cidades Marinhas: Solidões Moradas, belo exemplar do que ele mesmo intitulou jornalirismo.
São prosas assaltadas pela poesia, que se infiltra como água em areia, e permite que os textos sejam lidos em voz alta com raro prazer.
O livro, editado pela Lábias (ex-Nauemblu), tem um tratamento gráfico de primeira e contém imagens da foto-performance de Aline Dias "Homem de Açúcar". Um primor.

Em "Cidades marinhas ou que seriam", Dennis propõe um urgentíssimo projeto (ecos de Cortázar no tom cronópio da composição). E por que não? Deveria existir um mar mínimo para cada mínima cidade não-marinha. Com o calor que faz em Porto Alegre no verão, imaginem que bom termos um mar mínimo e portátil, que se poderia utilizar sempre que necessário. Desafogar a mente, dar uns mergulhos, palavrar com umas gaivotas, depois voltar às lidas da realidade. Sou a primeira da fila, please.

O livro de Dennis é justamente essa praia portátil.

Ele estará na Praça dos Autógrafos na próxima sexta, dia 13, às 18:30, junto com outro escritor catarinense, o Péricles Prade. Aproveitemos essas oportunidades em que o mar vem até as montanhas da Feira do Livro.

8 de novembro de 2009

Flickr do Rumor da Casa


Registros de performances, resultados de oficinas, matérias de imprensa; as imagens que documentam o projeto dedicado à poesia e performance, desde 2006.
Entre e vasculhe os guardados da caixa, clicando aqui.

7 de novembro de 2009

Arrisco dizer que a maioria dos leitores desse meu bloguinho é formada por poetas. Não? Gente que escreve, ou pesquisa, ou fica curiosa por poesia. Fiquem à vontade, todos, poetas e não-poetas. Alguns talvez só dêem uma passadinha para ver como é que tá, outros conferem os posts antigos, vão rolando, conferindo, pulam um, puxam outro, percebem os muitos erros, os deslizes, os excessos. Fico contente com as visitas, longas ou curtas, e ainda mais quando recebo algum comentário por email.

Encontro, no percurso, uma pluralidade de pessoas que procuram seu caminho no meio desse tanto de espetáculo, dor, desassossego, delícia e vontade que é a literatura. Enfim, estava eu aqui pensando, no meio da selva-Feira: há quantos anos frequento a Feira do Livro de Porto Alegre? Desde antes de publicar o meu primeiro, que saiu em 2002. Antes, como público (que é, garanto, a melhor maneira de habitar a cultura). Hoje, trabalhando (sendo público só nas horas vagas).

Estava eu pensando nos espaços / instituições / caminhos possíveis para quem está afim de se enveredar pela literatura e não encontra lume nesse mar tão vasto e revoltoso. Hoje há muitos, muitos meios; porém é necessário analisar bem o que é oferecido em termos de oportunidade para quem está começando.

Há mais de dez anos atrás inscrevi um manuscrito chamado "Mundos Possíveis" no Instituto Estadual do Livro, para concorrer à seleção pública da coleção 2000. Esse manuscrito se tornou, em dois anos (que foi o tempo que meu processo com o IEL demorou) o Desconjunto. Um primeiro livro que cumpriu seu papel e me deu muita alegria. Naquela época, eu sequer conhecia um outro caminho que pudesse me levar à publicação. Nem tampouco sabia o quão pouco significa a publicação, ainda mais quando se fala em poesia.

O IEL era, de fato, o melhor canal. Os livros eram analisados por uma comissão editorial que incluía escritores experientes, leitores especialistas. Com total sigilo, eles riscavam nossos manuscritos, analisavam, davam conselhos. Podíamos pedir que analisassem de novo uma versão reescrita (o que, de fato, fiz mais de uma vez). Eu sabia que aquelas eram sugestões de uma pessoa extremamente qualificada para a função que exercia, e essa oportunidade de aprender e melhorar minha escrita foi algo tão ou mais importante do que a edição do livro, que também não deixou nada a desejar.

Fui sortuda, pois esse canal de entrada no meio literário não existe mais. Não tenho visto muita movimentação no Instituto Estadual do Livro. É uma pena.

Hoje, quem está em busca de qualificação para a sua escrita e possível primeira publicação, tem outros caminhos. Assim como o IEL era um caminho sério, em que a gente podia confiar, hoje há alguns canais de peso - e também muita mesquinharia. Sim. O autor iniciante tem que ter muita atenção, pois muitas das oportunidades que aparecem não representam qualificação nenhuma. Há, por exemplo, publicação paga em antologias, agremiações duvidosas, condecorações falsas, eventos embustes.

A meu ver, as boas opções de hoje estão fazendo um trabalho muito bonito.

Freqüentar as oficinas do SESC, que são todas gratuitas e versam sobre temas da criação literária, é um ótimo caminho. São vários gêneros abordados: poesia, romance, conto, crônica, literatura infantil. Não há publicação-pela-publicação, e sim estudo, aprofundamento, ampliação de horizontes. Quem quer publicar um livro e não gosta de estudar literatura, de experimentar, ler e trocar referências; quem não quer se dedicar à sua escrita, por que quer publicar?

De uma forma ou de outra, o autor terá que empreender sua pesquisa. O texto terá que contribuir, de alguma forma, dar seu recado em uma paisagem formada por centenas, milhares de publicações. Existem muitas oficinas. As do SESC, da Puc, da Coordenação do Livro e da Literatura, são sempre boas pedidas.

E para publicar um primeiro livro com financiameto, por que não tentar o Fumproarte?

O Fumproarte é o excelente Fundo de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre. Com dois editais por ano, oportuniza a inscrição de projetos em várias áreas, incluindo literatura.
O edital é fácil de preencher, há um modelo que explica tintin por tintin como se faz, há oficinas que ensinam os passos da inscrição, e um pessoal extremamente qualificado que acompanha todo o processo. Os projetos são analisados por uma comissão formada por representantes das entidades culturais, que muda de ano a ano. Todas as reuniões são públicas.

O autor elabora seu projeto da maneira que quiser, escolhe editora, faz seu orçamento, gerencia suas atividades de divulgação (poder pagar um assessor de imprensa, um fotógrafo, um bom revisor, faz diferença no final).

Há quem não se inscreva porque morre de medo de papéis, de burocracias. Eu venci esse medo pois estava há cinco anos sem lançar um livro e não tinha condição nenhuma de pagar uma publicação. Nada como a água para nos ensinar a nadar. Pude perceber bem cedo que é muito mais fácil, prático, transparente e eficaz do que eu poderia imaginar antes de fazer a tentativa. E também que viver esse processo é um aprendizado muito rico.

Se o autor iniciante quer publicar um livro e não tem paciência de elaborar um projeto, explicitando as razões de porque ele deve ser publicado; não tem vontade alguma de oferecer um retorno de interesse público com a sua atividade; se não se interessa em ver de perto como funcionam os passos da publicação; não quer bolar as estratégias para o seu próprio trabalho acontecer; pergunto novamente: quer mesmo publicar?

Sem contar o edital de bolsas, que financia projetos de pesquisa, formação e criação em todas as áreas artísticas. E sem contar os outros editais, de outras instituições (essas nacionais): Funarte, Petrobras, Fundação Biblioteca Nacional, Oi, Natura, Rumos, Votorantim, etc. etc. etc. Vivemos um momento de ampliação das oportunidades, sim, e de dificuldades, muitas, também. Desconfio das saídas fáceis. Desconfio das opiniões baseadas na observação dos resultados sem entrosamento com os processos. O caminho da literatura é esse mesmo: trabalhar, trabalhar, trabalhar. Cada coisa tem sua hora, e cada hora a sua vez. A empreitada exige concentração, esforço, trabalho, abdicação.

Quem vê os autores nos grandes eventos como a Feira e frequenta a literatura por fora (ser público, delícia) não imagina quanto dentro teve que ser fiado, tecido, construído, reconstruído, esfolado, comprimido, reforçado, chorado, etecétera etecétera etecétera para estar ali. E contando com tudo isto (perdoem-me este longo texto) é fácil perceber que nosso meio literário está mil vezes de parabéns.

6 de novembro de 2009

Fábio Brüggemann, Dennis Radünz e Francine Canto. Escritores catarinenses. Na foto dentro da foto, Ronaldo Machado e Ronald Augusto. A imagem da imagem da imagem, foi por isso que Platão nos expulsou da República?

4 de novembro de 2009

Notícia boa


O meu Rumor da Casa é um dos três finalistas do prêmio Livro do Ano 2009, concedido pela AGES (Associação Gaúcha de Escritores). Fiquei surpresa com a notícia, pensando: "Como posso ser finalista se não me recordo de ter me inscrito?". Não há inscrição para o prêmio. Os livros são eleitos por indicação dos escritores associados. Na categoria Poesia, os finalistas, além do meu Rumor, são Prosa do Mar, de Marlon de Almeida; e Tramas de Orvalho, de Deise Beier. O prêmio destaca livros em todos os gêneros literários, em sete categorias. A premiação será no dia 12 de novembro.

Na maré das Morais


Foi a partir do poema abaixo que surgiu o título da atividade que farei amanhã na Tenda de Pasárgada, dentro da programação Padaria Espiritual, da 55ª Feira do Livro de Porto Alegre.

Sempre achei que o melhor som para exprimir poeticamente a sensação que a voz dos homens me causa é esse "o" fechado, sisudo e ressonante, que chamei de "voz de tronco". Uma voz polpuda, que fala, fala, fala sem parar, preenche, deixa vazar um tanto de ar, também.

Claro, se nós pensarmos na tradição da literatura ocidental, é essa voz masculina que prepondera, por razões históricas que não me cumpre discutir. Agora, a lírica surgiu de onde? De uma voz feminina, a voz de Safo, na antiguidade cretense. Ela que, segundo Platão, entendia do amor das mulheres o que Sócrates entendia do amor dos homens.

Fundou a poesia amorosa. A mesma que enveredou por doçuras demasiadas e, na boca dos homens, não raro tratou o tema pela descrição do objeto de amor: a mulher, às vezes vista como um objeto, sim. O poema Receita de Mulher faz nada mais do que descrever uma mulher "ideal". Ele começa com o famoso verso "As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental" e a partir disso envereda para considerações sobre o corpo desta mulher ideal, magra, imperfeita e quase sem alma.

Eu detesto o texto de Vinicius de Morais e foi a partir de uma leitura dele que surgiu um poema que seria uma anti-receita de homem, se assim pudéssemos nos referir a pessoas. Meu poema, ineditíssimo, surgiu da célula "Não carece ser um bom marido / nem rico, nem belo, nem lido." Termina com "Aliás, não precisa ser lindo".

É sim uma resposta bastante crua e mal feita para o poema de Vinicius, e vou me aventurar a apresentá-lo amanhã, sim sim sim. Depois, é claro, de falar outros textos de autoria feminina que fazem uma boa contrapartida à lírica amorosa escrita pelos homens nos últimos séculos. Esses textos serão apresentados num eixo performático, de modo que a atividade terá dois momentos: um de fala sobre as tensões citadas acima e outro de performance. (Afinal, mais do que falar sobre poesia, importa falar e ouvir poesia.)

Minha performance pretende ser um pouco de mar no concreto da fala. Um sopro no ar esbaforido da quinta-feira, brisinha a abrandar o calor da Feira.


Um homem é um oco:

um foco em zona indefinida.



Um homem é um todo em partes,

partida.

Partido: um homem tem muitas certezas.

Não suporta dor de parto.

Tem barba, mau cheiro,

maus poemas.

Os homens gritam, pedem socorro,

mamadeiras,

sussurro e perdas.

Quem há de ser, quem há de vir,

quando a hora assombra?

Até tu, bruto, fugirá.

-



Poema do livro Rumor da Casa.

3 de novembro de 2009

Catarinenses na Feira do Livro


Foto Francine Canto. www.francinecanto.com

Santa Catarina é o estado homenageado da 55ª Feira do Livro de Porto Alegre. Ontem aconteceu uma mesa com quatro importantes escritores catarinenses (na ordem da foto, da esquerda para a direita): Fábio Bruggemann, Dennis Radünz, Marco Vasques e Cristiano Moreira.

Tive a oportunidade de conhecê-los no período em que vivi em Florianópolis; sou fã das suas produções e também da postura que eles têm em relação à literatura. Santa Catarina é um estado culturalmente muito rico, cheio de conflitos, confusões e mistura de referências, como bem colocou o Dennis Radünz. Segundo ele, é um "estado alterado de consciência", e essa multiplicidade forma um cenário poético que nos dá boas lições nos quesitos de experimentação, abertura, fluidez, arejamento.

A composição da mesa representou bem esse cenário. Todos os quatro autores têm uma sólida carreira, articulada e bem desenvolvida. (O título da mesa, equivocado, não apresentou de maneira adequada os seus integrantes: "Novos autores/editores". Nenhum deles é autor de um livro só.)

Trabalham a literatura em várias frentes: são editores, produtores, oficineiros, empreendedores; assinam colunas, realizam pesquisas, organizam eventos; lêem, criticam e estimulam outros autores; enfim, são eles que constroem hoje um cenário em que essa pluralidade é desenvolvida de forma afirmativa. Também não têm papas na língua.

Bruggemann teve seu conto "O mudo" transformado no curta "Pelas Barbas de Magritte", exibido ontem no Cine Santander. No conto, Magritte tem uma interessante relação com seu barbeiro, o mudo. A partir disso, o filme construiu uma viagem surrealista de 4 min que encantou o público do Santander. Bruggemann autografa hoje o livro Fabulário dos Ilustres Desconhecidos, às 17:30, editora Letras Contemporâneas. Tem uma larga carreira como autor de artigos para jornal, alguns dos quais é possível ler no seu blogue.

Dennis Radünz, autor de Exeus, Livro de Mercúrio e Extraviário, excelente performer da poesia falada, tem uma sólida experiência como oficineiro de literatura, através do SESC-SC. Hoje coordena a editora Lábias, que no passado se chamou Nauemblu e publicou, entre outros, História Natural de Sonhos, poemas do naturalista Fritz Müller co-traduzidos por Dennis e Lia Carmen Puff. Trabalha hoje na Fundação Franklin Cascaes, setor de Cultura da Prefeitura de Florianópolis, sem deixar de lado a criação literária. Autografa hoje na Feira, às 17:30, seu primeiro livro de prosas: Cidades marinhas solidões moradas.

Marco Vasques lançou ontem o site Poetas no Singular. Confiram. Ele se dedicou a realizar entrevistas com dezenas de poetas, para jornais catarinenses, e é responsável pelos três volumes Diálogos com a Poesia Brasileira, uma compilação de entrevistas com poetas do sul do país. Atualmente produz o último volume da coleção. Atua na Secretaria Estadual de Organização do Lazer.

Cristiano Moreira autografou ontem o livro O Calafate Míope, pela editora Papa Terra. Calafate é o trabalhador que faz a vedação dos barcos, e o livro navega entre as metáforas do rio (o Itajaí-Açu) e a escrita (da poesia, do mundo, de si). Ele conclui no momento mestrado na Ufsc e publicou, pela Bernúncia Editora, Rebojo.


*

30 de outubro de 2009

Se eu fosse um jacarandá, tava roxa!


*

Foi numa manhã da primavera de 1932 que nasceu a personagem Clarissa, do Erico Verissimo. Já nasceu caminhando, pisando as flores dos jacarandás da Matriz. Era uma rapariguita vestida em uniforme de normalista. Ela provavelmente se dirigia para a Duque de Caxias, a rua onde resido. Nasceu pelo olho do moço Erico, trabalhador endividado, bom sujeito, tradutor infatigável, escritor em formação.

Como deve ser bom ser personagem. Não dói pra nascer. Não precisa ir no banheiro, não sente solidão. (Ela, a minha Clarissa, não concorda com nada disso que estou dizendo). (Temos uma relação ótima, segundo ela; e difícil, para mim. Mas é assim.)

Nesta primavera de 2009, aqui está, comigo. Já é outra, mas continua claríssima. Está falando e gingando e se mexendo muito. Ela habita minha mesa de trabalho, dá ordens, fala com a minha voz, rodopia, bota o dedo nas minhas dores, invade as minhas preces e até as minhas performances. Gente...

Se eu pudesse contar a vocês... Esta é uma degustação mínima dos relatos e desabafos produzidos diariamente a respeito do que estou criando e procriando no momento: um romance.

A Clarissa, personagem emprestada de outro livro, renascida na intertextualidade, vem se comunicar comigo, fala, pede, introduz, media e permeia a história da Clara, a minha personagem principal. Clarissa foi adolescente nos anos 30. Clara, nos anos 90.

Ambas são personagens, mas a Clara lê a Clarissa e a Clarissa muito sabe sobre a Clara, também. Meu apê virou um alarido de vozes. Estão as duas, agora, metendo o bedelho neste post e dizendo que não é para eu falar mais nada.

Ok, já chega, eu me calo. Mas em março o romance estará pronto, e daí vocês vão ver. Oh, se vão!Gente, ainda bem que sou uma moça, porque se fosse um jacarandá, tava roxa!


*

25 de outubro de 2009




Eu e elas

*


Eu caio do medo ao caos
e vejo os vultos escuros
das mulheres assombradas:
Sarah, Virginia, Ana C.

Clarice, é você atrás do galho?
ou sou eu que sussurro, em frangalhos;
somos nós: a vertigem e o soco.


Socorro: são elas, sou eu? Somos quem? Sou elas, são eu. Somos um pedaço de tudo o que pode ser deglutido, de tudo que é entretecido, que se esconde e fala nas surdinas. Poesia é o que sobra dessa soma de retalhos. Elas falam. Eu ouço. Eu falo. São elas que falam! Essas vozes que se confundem, se misturam, causam alarde, fazem fissuras, fazem eco, choram, gritam, ouvem. Ou também, em linguagem teórica: a intertextualidade.

É a partir disso que criei o evento Eu e elas. Das tensões, alegrias e angústias dessas influências: Adélia Prado, Sylvia Plath, Clarice, Ana C., Laura Riding, misturadas a sons de flauta, dissonâncias, e vozes que gritam na rua, ou na internet (Pedro, cadê meu chip?). Tudo aquilo que não cabe nas ordens: Fecha-a-perninha, Fica-quietinha.

As poetas que falam em mim (e nunca serão 'poetisas') parecem buscar ou partir do mesmo caroço: uma fala feminina que sangra, delicada e mortal - aquela voz que não faz sombra para a fala dos homens. Como elas falam em mim, o que eu falo delas: tudo o que assombra e é íntimo na criação, a raiva, o amor, o conflito da influência. Decidi transformar tudo isso em som e voz, que sairá toda de ímpeto e uma só vez, irrepetível. Eu e elas: uma conversa poética entre senhoras, para quem quiser ouvir.

Performance com apresentação de poemas originais e adulterados, efeitos sonoros e interação. Apresentação única.


29/10, às 19h30min,
na Saraiva do BarraShoppingSul.


Entrada franca, estão todos convidados.

*

24 de outubro de 2009



23 de outubro de 2009

Na casa do corpo
o tempo não corre:

escorre passado
por todos os poros.

Na casa do corpo
memória sozinha

no braço a cozinha
no teto o abraço.

Na casa, no corpo
no murro do sopro

há bocas de portas
abertas

veias e vínculos
muros e tímpanos

cortam o soco
pelo meio

cortam a sombra
pelo meio

cortam o assombro
pelo meio

esclarecimentos

põem cimento nos olhos
põem distância nos poros

dispõem
passados
cobres

Na cobra do corpo
há que fazer a curva

ainda que sobre
a culpa




19 de outubro de 2009

Siga o mapa


Programação do projeto Mapas Práticos, da 7ª Bienal do Mercosul.

16 de outubro de 2009

*

Poemas Gravados é o nome de uma exposição que integra poesia e gravura, organizada pela artista plástica Anico Herskovits e pelo poeta Sidnei Schneider. A abertura da segunda edição será no próximo dia 20, às 19h, no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo (Andradas, 1223).

Participei da proposta e curti o desafio. Na edição 2008, cada poeta enviou seu texto e os gravuristas trabalharam sobre as sugestões poéticas. Tive a sorte de ter meu poema "Um homem é um oco" escolhido pelo artista Paulo Chimendes. Foi interessantíssimo conhecer o artista e observar as conexões, relações, similaridades (de proposta e processo) entre a minha escritura e a gravura dele.

Na edição 2009, aí sim o bicho pegou. A experiência foi a oposta: a partir das gravuras, os poetas compuseram seus textos. Fiz uma série de rabiscos e tentativas a partir de um trabalho de Marcelo Monteiro. Tudo com prazo curto e necessidade de concisão, já que o poema será impresso em A4, junto com a gravura.

O instigante da experiência foi criar um texto para coabitar outra linguagem comunicativa, sem assaltá-la; construir uma proposta coerente com os signos que já estão lá. No meu caso, a gravura mostra três figuras humanas. Foi necessário investigar quem são, em que relação se encontram, e a partir disso tentar exprimir o que os traços me sugeriram de sentimentos.

Depois de criar uma situação para as figuras (agora personagens), foi a luta por exprimi-la com a máxima concisão. Durante o processo de criação de texto, fui compondo vários pequenos poemas, até chegar à versão final (que não será publicada aqui, pois seu interesse reside na conexão com a gravura). Para dar uma previazinha e incitar a curiosidade de vocês, vai abaixo um dos pequenos textos produzidos durante o processo:


Agrura em três vozes

Eu agüento. Com os olhos

bebo a cena, e minha boca

chora.

Nossa casa, nossa calma, a água levou.

Eu não falo, mas queria meu brinquedo.

E que mamãe não tivesse medo.

Eu bebo o ácido da água-forte.



*

13 de outubro de 2009

Para melhorar a educação


Projeto de lei obriga os políticos a matricularem seus filhos e dependentes em escolas públicas:

http://www.senado.gov.br/sf/atividade/Materia/detalhes.asp?p_cod_mate=82166

Achei ótimo, e estou na torcida pela aprovação. Mais do que salutar para a educação pública.



*

11 de outubro de 2009

Desaprendimento



*


Aos quinze anos, eu costumava usar todas as minhas roupas do lado avesso. Cruzava a Praça Matriz de Lajeado sob olhares suspeitosos e apreensivos. Não dava bola. Era então uma estudante inconformada, fruto bruto de muitos desejos, dúvidas e incompreensões. Continuo a mesma, no mesmo patamar; o que mudou foi o apuro técnico e a experiência de alguns anos. Sou agora o fruto um pouco menos bruto desses mesmos desejos, sob o polimento de sucessivas leituras.

Meus excessos criativos da época, se por um lado procuravam denunciar as asperezas do ambiente; por outro, tentavam uma relação com o gesto artístico, no que ele tem de essencial. Eram motivados pela fascinação que os livros sempre me causaram. Esse encanto me levou a sair de Lajeado aos dezessete anos, para estudar filosofia e literatura, aprender um pouco de lógica e muita teoria literária, ler Aristóteles, Kant, Descartes, Ezra Pound, Manuel Bandeira, Octavio Paz. Depois, a estudar Fernando Pessoa e Samuel Beckett, no mestrado. E ter vontade de dar oficinas literárias, circulando por cidades de Santa Catarina e do Rio Grande, carregando mala, falando poesia, fazendo performances, passando apertos, ganhando sorrisos, investigando as relações entre as artes. É o mesmo encanto que me faz hoje trabalhar para o SESC ou para a Bienal, e procurar motivar leitores, dividir um pouco da minha paixão, multiplicar.

Minha vestimenta adolescente era uma metáfora, sim. Simples, bruta, incompreendida. Eu desejava conhecer o avesso do mundo, que costuma aparecer mais em livros do que em faces. Eu queria dar à mostra o que ficava escondido, aquilo que incomodava no escuro, ficava abafado e doendo na invalidez. E também aquilo que doía e ria, aquilo que procurava explodir junto com os momentos e era difícil expressar. O lado avesso revelava as coisas que não encontravam espaço no cotidiano permeado de regras, horários, lugares certos e pessoas certas, superego, timidez, bons costumes.

É assim com a poesia. Ela consegue expressar o inexprimível, ou seja, vai de coração a coração, sem depender da racionalidade para estabelecer um laço comunicativo. É antes um assalto à lógica. Diz Octavio Paz que a poesia desafia o Princípio de Não-Contradição. A poesia comunica aquilo que é incomunicável nas outras utilizações da linguagem (aquelas que estão pautadas pelo significado das palavras, pela sua coerência, verdade e precisão).

A linguagem poética se constrói por imagens, jogos de palavras radicalmente plurissignificativos e aparentemente ilógicos. A arte é o território do estranhamento. As imagens combinam as palavras sem compromisso com sua coerência, precisão e verdade. Embaralham os significados. Não têm compromisso nenhum com a lógica tradicional, mas sim com a carga afetiva que pode ser expressa só assim, em imagens poéticas. A poesia anda a passos largos ao lado da liberdade: "Poesia é voar fora da asa", segundo Manoel de Barros.

Cada leitor sente a imagem conforme as suas peculiaridades, as mais pessoais e intransferíveis. Suas lembranças, convicções, traumas e desejos são a base que ele utiliza para a leitura do poema, que é sempre uma leitura ativa. Não há concordância possível no que se refere à interpretação. Para a poesia, somos iguais em diferença: ninguém pode dizer quem está certo ou errado. Apesar disso, concordamos. Como? Cortázar diz que a poesia tem um "interlúdio mágico".

Se, por exemplo, eu acabo de sofrer uma decepção amorosa, provavelmente não vou ficar muito entusiasmada com os versos de amor de um Neruda. Por outro lado, se estou apaixonada, eles serão tudo para mim. Eu me vejo, me reflito nos versos como em um espelho.

Muitas pessoas talvez prefiram não se ver, ou temem se encontrar ali refletidas. Vence o sentido da aventura: para realizá-la é preciso não ter medo do desconhecido, e se deixar levar pelo fascínio da viagem. A riqueza do que foi possível experimentar vale mais do que o medo. E quem não se conhece tem menos possibilidades de viver integralmente suas alegrias. Tapa o sol com a peneira (da razão, dos compromissos, de um carro novo, das aparências) e perde o melhor: o prazer, o encanto da viagem, as histórias para contar.

Foi um pouco disso que falei na manhã de abertura da Feira do Livro de Lajeado, para estudantes do ensino médio de duas escolas. Simples e educativo. Habitei as duas, quando era um pouco (não muito) mais nova e morava ainda na cidade natal. É uma satisfação ver as professoras Judites (são duas, mas cada uma vale por vinte) incentivando seus alunos da mesma forma como me incentivaram, na época. E as alunas de hoje, mais risonhas do que eu era. E eu, simultaneamente sentada à minha frente e me ouvindo, pude me ver escorregando, rindo, levando susto, e me virando do avesso, também.


*

No picadeiro com Alexandre Brito

*

Assisti ao poeta Alexandre Brito na Feira do Livro de Lajeado. Ele cantou, contou histórias, falou poemas e apresentou o livro Circo Mágico: poemas para crianças de todas as idades. Na platéia, estudantes, professoras e alunas do curso Normal, além de quartas e sétimas séries da escola Madre Bárbara.

Eu não conhecia os poemas do Circo Mágico e fiquei absolutamente encantada. Desde o bilheteiro até o atirador de facas, os trapezistas e malabaristas, o domador e o palhaço, o livro nos faz viajar pelo maior espetáculo da Terra. Cheio de espanto, delícia e sonoridade, nos leva a acompanhar todas as entradas e jogadas. Cada poema apresenta uma das figuras circenses, e sentimo-nos na platéia, olhos vidrados no picadeiro. Podemos ver as personagens por dentro e também fora da sua lida no palco, entrando em suas personalidades, observando seus gostos e gestos cotidianos − e isso é o que mais encanta nos poemas de Alexandre. Quem não teve curiosidade de ver os camarins dos artistas, conhecer a mulher do atirador de facas, ver as trapezistas se vestindo, ou saber quem é o palhaço quando não é palhaço?


Entre no blog do poeta aqui.


*

Direto da Praça Matriz




Dias de agito, bons abraços em velhos conhecidos reconhecidos entre os passantes da praça. Dias de quase chuva, quase sol, de torcida pelo tempo: bom tempo. Dias de estar em família com a cidade, ser parte, e ver as diferentes intensidades se unirem e partilharem o momento. Ver o trabalho amoroso da Júlia, da Betina, da Fernanda e das outras estrelas que fazem tudo acontecer. Ver o céu pontilhado. Ver o olhar acalorado dos estudantes que sentam hoje nas mesmas salas em que eu aprendi a ver o mundo com lentes literárias. Ser uma parte disso tudo: desse movimento de pontos e frases, olhares e falas que compõem o grande poema, aquele que a gente ainda espera ver escrito num futuro melhor. Estar perto de tudo que existe e insiste é uma forma de lutar para sermos mais ternos e compreensivos nesse futuro quem sabe se próximo − por que não? E isso inclui termos mais livros por perto.

*


2 de outubro de 2009


Parque Histórico Municipal de Lajeado.
*

Fui convidada pelo SESC para ser a patronesse da Feira do Livro de Lajeado. Farei uma fala-performance na abertura da Feira, na próxima quarta-feira, dia 7 de outubro, às 9h, na Praça Matriz. A programação da Feira segue até domingo.

Fiquei surpresa e feliz com o convite, que veio em um momento muito oportuno, justamente quando me aproximo da cidade e suas peculiaridades culturais, e suas qualidades afetivas - um tesouro de pesquisas e semente eterna para criações.

A cidade imaginária de Pedra do Moinho, onde se passa a ação do meu romance (em fase de escritura) é diretamente derivada de Lajeado e das marcas culturais que a imigração alemã deixou - na cidade, em nossos rostos, e debaixo das nossas peles. A pesquisa me leva à cidade com uma freqüência maior e também gera a oportunidade de descobrir Lajeados diferentes, que eu não conhecia, com o distanciamento que o estudo proporciona. Estou muito em paz com as minhas origens neste momento, e com um interesse renovado por tudo o que revele os seus aspectos antes dissimulados ou escondidos.

As marcas de Lajeado se fazem ouvir em meus poemas, também, desde sempre. Elas estão em mim, na cor de meus olhos, em minhas incompreensões, em minha brutalidade e inseguranças, no meu sorriso, em minha vontade de criar, em minha paixão pela literatura.

Foi lá no Castelinho, um colégio estadual, onde me incentivaram a ler Wilde, escrever poemas e estudar filosofia. Convivi com os colegas que vinham da zona rural, da periferia urbana, e do centro da cidade; conheci preconceitos, abusos, solidariedade, conheci estilo, maneiras de se portar, epifanias, Deus, construção de texto. Sim. Tudo isto e mais o resto que talvez o tempo dirá, ou tornará mais claro.

Sempre me pareceu que a ambiência da colonização alemã e italiana (a mesma da dureza e da frieza, sim) proporcionou um bom encalço para as coisas do pensamento e da cultura. Ou pelo menos foi essa a minha vivência, filha de um músico e uma professora de português.

As trocas de livros entre amigos, as aulas de violino e violão, as pesquisas do historiador, as apresentações da orquestra, tudo isso habita o cotidiano da cidade. Essa tendência talvez seja uma característica ainda inconsciente de si e pouco valorizada coletivamente. Algo sub-reptício, ou tão óbvio que se torna transparente. É preciso aguçar o olhar para ver certas coisas.

E agora me vejo aqui, em uma nova Lajeado; doze anos depois de ter saído, voltando: fazendo parte do lugar, com os pés muito no chão, e a cabeça muito nas nuvens (como também convém a uma escritora), ou seja: equilibrada, por que não?

Vou divulgar por aqui algumas das coisas bacanas que descubro e redescubro nas lajes lajeadeneses, então aguardem novos posts.



(Peço desculpas pela ausência de espaços para comentário, sigo respondendo sempre no telmascherer@gmail.com)

*

27 de setembro de 2009

Três cenas e uma constatação

*


Primeira cena:


Bar Odeon, no centro de Porto Alegre. Sobre os azulejos desenhados, estão penduradas propagandas antigas de cerveja. Não mais que dez mesas estão lotadas de gente que bebe e fala, ou bebe e escuta. Eu escuto. Ao meu lado, um quadro de Ella Fitzgerald, à minha frente, um piano em ação, e também um bandoneón comovente, ambos chorando um tango muito profissional. Estou fazendo expressões de quem não quer mais nada na vida, ainda que involuntárias. Intervalo. O senhor do bandoneón (seus cabelos são brancos e o sorriso, largo) vira-se para mim e diz:

- Não há mais nada que inventar. - Eu sorrio convidativa e ele se aproxima. - Sim, não há mais nada que inventar. Depois que o Piazzolla fez isso! - E ele toca o tema, demonstrando. - Não acha? Tem muita coisa bonita.

Eu concordo. Ele não tira o instrumento do colo, e vai explicando alguns detalhes do abrir, do fechar, da maneira de executar as notas. Lá pelas tantas, faz uma escala completa e diz:

- Vê bem, são só doze notas. Com essas doze, já fizeram tudo. E tem gente que ainda quer fazer algo novo. Pra que algo novo? - E ele continua mostrando temas irretocáveis, feliz, agradecido.


Segunda cena:


Estou sentada com dois jovens poetas em um copo sujo. Comemos pastéis e bebemos cervejas.

- É por isso que tem aquilo que o Haroldo de Campos falou, do pós-tudo. Ou foi o Décio Pignatari? Não lembro. Mas é isso, é assim, depois da poesia concreta, não tem mais o que inventar.

- E aqueles lances de poesia sonora? - Emenda o outro, com voz pausada - Tirar completamente o significado do jogo e ficar só com os sons das palavras. Vê bem: é uma experiência radical.

Eu adoro a poesia sonora e quero continuar nesse assunto, mas o primeiro continua:

- É isso que eu tou querendo dizer, entende? Os caras já fizeram tudo, nós viemos depois. O máximo que podemos fazer é um uso competente da linguagem.

Eu penso. Ele continua:

- A gente pode se esforçar ao máximo, mas tudo o que a gente fizer, sempre alguém já vai ter feito, meu. A gente veio depois.

- Ah! - sorri o outro, faceiro - lembrei de um poeminha do Quintana, que diz assim: Os clássicos escreviam tão bem porque não tinham os clássicos pra atrapalhar.

Rimos todos os três, à larga, e sorvemos goles bem demorados, refletindo.

- É... - sentencia o mesmo, conformado: - São séculos de tradição, meu nego.

- Séculos! Dois milênios - se ri o outro.

Eu observo.


Terceira cena:


Um afeto chega em minha casa muito cansado e sorridente. Antes de deixar a mochila em um canto, ele a abre, tira um CD e me alcança:

- Olha isso aqui, Telma. Trouxe pra te mostrar. - Eu coloco o CD no aparelho e, aos primeiros acordes, arregalo meus olhos ao máximo, embevecida.

- Que é isso? - pergunto. Um piano me leva por uma estrada ensolarada, e uma flauta passa voando, como um passarinho. Tudo muito harmonioso, leve, quente. Ele diz:

- Sabia que tu ia gostar. Achei em um balaio. É mineiro. O filho do Milton Nascimento canta.

- É mesmo? - pergunto eu, agraciada. Começo a analisar o encarte, onde descubro que o disco é do compositor Flávio Henrique, autor de todas as canções, e se chama Primeiras Estórias, mesmo título do famoso livro de contos de Guimarães Rosa.

As canções não se encalçam nas estórias dos contos, nem dependem delas; ao mesmo tempo, transpõem com eqüidade o mesmo clima daquele sertão, e propõem uma viagem por paisagens áridas, líricas, cheias de significados.

Reconheço uma canção de um disco do Paulinho Pedra Azul, e logo vem este cantá-la, no disco desconhecido.

- Ah! Eu jurava que essa música era do Paulinho Pedra Azul.

O que o disco de Flávio Henrique comunga com o livro é o seu jeito fino, sofisticado. Uma extrema competência, sim, no uso das linguagens (a musical, a literária).

Olho mais de perto a foto do compositor e levo um choque:

- Mas é um guri! - digo, quase num grito. Meu afeto se aproxima e dá uma gargalhada:

- Se é, não sei, mas parece ter uns vinte anos.

Lemos juntos o texto do encarte, escrito pelo diretor musical (Sérgio Santos, experiente comparsa do Clube da Esquina), de onde destaco este trecho:

"Muito papel já se gastou nesses tempos ávidos por modas e ondas para, em nome de uma suposta modernidade, se decretar a falência da música brasileira e a ausência de novos talentos, em particular de novos compositores. Nunca me pareceu que a vida pudesse ser desigual com as gerações. Se ela foi tão pródiga com as passadas, não seria lógico que perdesse a generosidade para com os brasileiros com menos de trinta."


*

Quarta cena (não prevista):


Fala de um leitor em um debate:

"Sabem o que eu acho? Que na Grécia Antiga os espectadores também já tinham ouvido milhares de vezes as mesmas histórias, os mesmos mitos. Acho até que na época de Homero todo mundo devia dizer que não tinha mais nada para inventar."


25 de setembro de 2009

17 de setembro de 2009

Grito e escuta: Poesia, silêncio e performance

*

Vou participar das atividades do projeto Mapas Práticos, que integra a 7ª Bienal do Mercosul.

Darei oficinas de Poesia e Performance durante a Pré-Bienal, que está acontecendo no Santander e vai até o dia 4 de outubro.

Durante três semanas, sob o nome de Índices e Anotações, uma série de atividades vai acontecer nos espaços do Santander Cultural. Confira a programação completa.

Minhas oficinas acontecerão aos domingos:

Dias 20 e 27 de setembro
das 14h às 17h.

Os encontros terão um momento teórico e um momento prático. Leitura de textos e apresentação de referências deverão compor o instrumental teórico. O momento prático será dedicado à realização de exercícios de criação
. Cada participante terá a oportunidade de experimentar criar a sua mini performance de poesia.

As atividades são gratuitas. As vagas para todas as oficinas são limitadas e as inscrições devem ser feitas através do telefone 3254 7500.

Informações através do e-mail projetopedagogico@bienalmercosul.art.br


*

14 de setembro de 2009

Ach, du!


Parque Histórico de Lajeado. Foto de família.

*

Assisti com alegria ao filme Berlim Brasil, dirigido por duas talentosas e dedicadas moças (começando bem suas carreiras): Martina Dreyer e Renata Heinz. O filme ainda não foi lançado, pois vai concorrer em festivais, mas o trailer está no youtube, confira aqui.

É um documentário realizado com poucos recursos e um bom tema: a diversidade lingüística e cultural de um lugarejo do interior do Rio Grande do Sul, chamado Berlim. Fica bem próximo das minhas origens lajeadenses, é fato. E de assalto acaba trazendo à tona reflexões interessantes. O filme é composto de depoimentos falados em português, alemão e principalmente nos dialetos derivados da língua alemã, que estão hoje em franco desaparecimento.

Só os velhos os falam. A vó Elza, personagem real do meu Rumor da Casa, por óbvio, sabia bem. Aprendeu português quando os filhos foram para a escola. A custo e por obrigação: por causa da guerra. Não se podia falar a língua que esses imigrantes trouxeram junto com a sua miséria e seu obstinado, cruento orgulho. Quem falasse, fosse pego, parava na cadeia. Silêncio, medo, vergonha. Passada a guerra, tudo mudado, aquele silêncio se tornou subcutâneo. Todos foram aprendendo português. Ainda assim, a linguagem misturada ainda é amplamente praticada por aquelas bandas.

Vó Elza só falava alemão com seus gatos e com as vizinhas, suas comadres. Entre sorrisos, elas nos olhavam e entre si trocavam impressões às quais não tínhamos acesso. Uma curiosidade que media distância e poder entre gerações.

As diretoras do filme, como eu e outros jovens dessa região e de tantas outras, imagino que não aprenderam a se exprimir nos dialetos. São línguas diferentes do alemão gramatical, criadas aqui. As moças agora voltam um olhar ativo, procurando mostrar ao mundo essas diferenças, marcas, e peculiaridades, porque todos somos iguais. Mandaram bem.

A minha motivação criativa também aponta para dentro, para o passado, e para o interior do estado. No romance que ora gesto, as diferenças, tensões, descobertas desse multiculturalismo fazem parte do pano de fundo onde vivem as personagens. Durante a infância, pelas ruas, muito ouvi os dialetos e seus derivados sotaques, repreendidos e até corrigidos na escola em um laboratório de fonética.

Durante um período, a gente pode negar, criticar, ir pra bem longe, e até se revoltar com as origens, seus preconceitos, sua carga de sofrimentos. Faz parte. Esse é, entretanto, o material que conhecemos, do qual podemos falar com propriedade. Então todo passado vira uma riqueza infinita. Agora é o momento de retomar: de olhar para trás e ver o que de interessante, de belo, de especial há naquele ponto perdido na geografia, mas cravado no peito, como uma espada.


*

9 de setembro de 2009

O riso do choro



*

Quando conheci o Elias Barboza, um jovem bandolinista e compositor porto-alegrense, fiquei impressionada. Ele é um instrumentista virtuose, daqueles que não se encolhem diante das dificuldades dessa arte maravilhosa, instigante e dolorida que é a música.

A poeta Telma admirou o músico inspirado e colheu motivação para algumas criações verbais, à moda da tradição do choro.

São remarcáveis as possibilidades poéticas da sua figura criativa ao bandolim. Suas composições recolhem da tradição o que importa e refazem os caminhos seguindo a lição do mestre Bashô: "Não imite os antigos, procure o que eles procuraram".

Quinta estaremos juntos na Saraiva do BarraShopping. Vou apresentar alguns poemas simples, fortes, líricos, da tradição: o Caso do Vestido (Drummond), os Três Mal-Amados (Cabral), diversas faceirices do Bandeira e até um Pessoa (Pessoa ele mesmo) muito musical e simbolista, do Cancioneiro.

Ao lado desses mestres, falar poesia fica fácil - pra chorar ou sorrir, melhor é estar perto da canção.

*

Na cor dos acordes

No corpo do som

Elias

Tem os braços dados

Com um bandolim

Ele compõe abraços

Entre as estrelas

Estréia

no breu

um clarim

Se acaso as mãos frias

Se os olhos cerrados

Se no rosto ar de choro

é puro gozo:

Céu

por detrás

das cortinas

Véu

que afasta as

neblinas

Gosto de vê-lo

nos braços da lua:

prece sem pressa

simples assim:

um choro, um bandolim.



4 de setembro de 2009

Carta aberta ao Sr. Inspetor


*

Monsieur Anônimo:


Difícil, de fato, falarmos. De fake, já chegam os fantasmas com os quais convivo todos os dias. De falso, já chega o cadafalso do sistema, os perigos da gripe, as cotações, as ligações da cobrança. A vida anda tão ilusória que a minha arte é o meu trabalho.

Quando falo de mim, falo das personagens e das páginas. Sou fumaça, vê? Não existo. Tente transpassar com uma faca o meu eu lírico. É tudo transparente. A Telma Scherer, ela, é outra. O Sr. não percebe? Ela mente.

Ela (eu) tem cédula de identidade, dor nas costas, desilusões e chulé, como os outros. Gosta de fazer faxina. Passa horas na cozinha. Chora em mesas de bar. Precisa de cafuné. É uma mulher, como as outras. Antes de ontem ela tomou 4 doses - 4 - e quase saiu sem pagar. É descuidada. É boba. Ela não é de nada, como as outras.

Eu (ela) somos muito parecidas. Há que fazer um certo esforço, eu sei. Mas o Sr. conseguirá.

Que abuso o Sr. vir se intrometer na minha cantilena sem tocar nenhum instrumento. Que abuso o Sr. confundir-me assim desse jeito com a sua tia, mãe, irmã e amante. Faça-o de maneira privada (não comigo, ou com ela, mas com a sua Srta fantasiada, pessoal e intransferível, sim?) Faço aí dentro o que quiser, sem que eu perceba.

Que encanto pode ser doce por trás dessa fria muralha - que sou eu, Srta. Scherer; que é você, Sr. Inspetor?

Sr. Anônimo, o meu paraíso está dentro da sua cabeça. Abra-se para si mesmo e veja.

Aqui fora, há chuva, sol, ipês roxos florescendo, disciplina. Um bruto esforço para que tudo pareça suave e equilibrado no resultado final. Mas não é bonito. Há dores nas costas, dores nas mãos. Há o pão de todo dia, que tem sabor. Que tem cheiro. Diferente aliás do Sr., que só existe para agradar ou desagradar paredes invisíveis, Sr. Anônimo.

Ainda mato esse seu anonimato.



*