
14 de novembro de 2009
Boto fé!

11 de novembro de 2009
Cidades Marinhas: Solidões Moradas

O livro de Dennis é justamente essa praia portátil.
8 de novembro de 2009
Flickr do Rumor da Casa

Registros de performances, resultados de oficinas, matérias de imprensa; as imagens que documentam o projeto dedicado à poesia e performance, desde 2006.
Entre e vasculhe os guardados da caixa, clicando aqui.
7 de novembro de 2009
Encontro, no percurso, uma pluralidade de pessoas que procuram seu caminho no meio desse tanto de espetáculo, dor, desassossego, delícia e vontade que é a literatura. Enfim, estava eu aqui pensando, no meio da selva-Feira: há quantos anos frequento a Feira do Livro de Porto Alegre? Desde antes de publicar o meu primeiro, que saiu em 2002. Antes, como público (que é, garanto, a melhor maneira de habitar a cultura). Hoje, trabalhando (sendo público só nas horas vagas).
Estava eu pensando nos espaços / instituições / caminhos possíveis para quem está afim de se enveredar pela literatura e não encontra lume nesse mar tão vasto e revoltoso. Hoje há muitos, muitos meios; porém é necessário analisar bem o que é oferecido em termos de oportunidade para quem está começando.
Há mais de dez anos atrás inscrevi um manuscrito chamado "Mundos Possíveis" no Instituto Estadual do Livro, para concorrer à seleção pública da coleção 2000. Esse manuscrito se tornou, em dois anos (que foi o tempo que meu processo com o IEL demorou) o Desconjunto. Um primeiro livro que cumpriu seu papel e me deu muita alegria. Naquela época, eu sequer conhecia um outro caminho que pudesse me levar à publicação. Nem tampouco sabia o quão pouco significa a publicação, ainda mais quando se fala em poesia.
O IEL era, de fato, o melhor canal. Os livros eram analisados por uma comissão editorial que incluía escritores experientes, leitores especialistas. Com total sigilo, eles riscavam nossos manuscritos, analisavam, davam conselhos. Podíamos pedir que analisassem de novo uma versão reescrita (o que, de fato, fiz mais de uma vez). Eu sabia que aquelas eram sugestões de uma pessoa extremamente qualificada para a função que exercia, e essa oportunidade de aprender e melhorar minha escrita foi algo tão ou mais importante do que a edição do livro, que também não deixou nada a desejar.
Fui sortuda, pois esse canal de entrada no meio literário não existe mais. Não tenho visto muita movimentação no Instituto Estadual do Livro. É uma pena.
Hoje, quem está em busca de qualificação para a sua escrita e possível primeira publicação, tem outros caminhos. Assim como o IEL era um caminho sério, em que a gente podia confiar, hoje há alguns canais de peso - e também muita mesquinharia. Sim. O autor iniciante tem que ter muita atenção, pois muitas das oportunidades que aparecem não representam qualificação nenhuma. Há, por exemplo, publicação paga em antologias, agremiações duvidosas, condecorações falsas, eventos embustes.
A meu ver, as boas opções de hoje estão fazendo um trabalho muito bonito.
Freqüentar as oficinas do SESC, que são todas gratuitas e versam sobre temas da criação literária, é um ótimo caminho. São vários gêneros abordados: poesia, romance, conto, crônica, literatura infantil. Não há publicação-pela-publicação, e sim estudo, aprofundamento, ampliação de horizontes. Quem quer publicar um livro e não gosta de estudar literatura, de experimentar, ler e trocar referências; quem não quer se dedicar à sua escrita, por que quer publicar?
De uma forma ou de outra, o autor terá que empreender sua pesquisa. O texto terá que contribuir, de alguma forma, dar seu recado em uma paisagem formada por centenas, milhares de publicações. Existem muitas oficinas. As do SESC, da Puc, da Coordenação do Livro e da Literatura, são sempre boas pedidas.
E para publicar um primeiro livro com financiameto, por que não tentar o Fumproarte?
O Fumproarte é o excelente Fundo de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre. Com dois editais por ano, oportuniza a inscrição de projetos em várias áreas, incluindo literatura.
O edital é fácil de preencher, há um modelo que explica tintin por tintin como se faz, há oficinas que ensinam os passos da inscrição, e um pessoal extremamente qualificado que acompanha todo o processo. Os projetos são analisados por uma comissão formada por representantes das entidades culturais, que muda de ano a ano. Todas as reuniões são públicas.
O autor elabora seu projeto da maneira que quiser, escolhe editora, faz seu orçamento, gerencia suas atividades de divulgação (poder pagar um assessor de imprensa, um fotógrafo, um bom revisor, faz diferença no final).
Há quem não se inscreva porque morre de medo de papéis, de burocracias. Eu venci esse medo pois estava há cinco anos sem lançar um livro e não tinha condição nenhuma de pagar uma publicação. Nada como a água para nos ensinar a nadar. Pude perceber bem cedo que é muito mais fácil, prático, transparente e eficaz do que eu poderia imaginar antes de fazer a tentativa. E também que viver esse processo é um aprendizado muito rico.
Se o autor iniciante quer publicar um livro e não tem paciência de elaborar um projeto, explicitando as razões de porque ele deve ser publicado; não tem vontade alguma de oferecer um retorno de interesse público com a sua atividade; se não se interessa em ver de perto como funcionam os passos da publicação; não quer bolar as estratégias para o seu próprio trabalho acontecer; pergunto novamente: quer mesmo publicar?
Sem contar o edital de bolsas, que financia projetos de pesquisa, formação e criação em todas as áreas artísticas. E sem contar os outros editais, de outras instituições (essas nacionais): Funarte, Petrobras, Fundação Biblioteca Nacional, Oi, Natura, Rumos, Votorantim, etc. etc. etc. Vivemos um momento de ampliação das oportunidades, sim, e de dificuldades, muitas, também. Desconfio das saídas fáceis. Desconfio das opiniões baseadas na observação dos resultados sem entrosamento com os processos. O caminho da literatura é esse mesmo: trabalhar, trabalhar, trabalhar. Cada coisa tem sua hora, e cada hora a sua vez. A empreitada exige concentração, esforço, trabalho, abdicação.
Quem vê os autores nos grandes eventos como a Feira e frequenta a literatura por fora (ser público, delícia) não imagina quanto dentro teve que ser fiado, tecido, construído, reconstruído, esfolado, comprimido, reforçado, chorado, etecétera etecétera etecétera para estar ali. E contando com tudo isto (perdoem-me este longo texto) é fácil perceber que nosso meio literário está mil vezes de parabéns.
6 de novembro de 2009
Fábio Brüggemann, Dennis Radünz e Francine Canto. Escritores catarinenses. Na foto dentro da foto, Ronaldo Machado e Ronald Augusto. A imagem da imagem da imagem, foi por isso que Platão nos expulsou da República?4 de novembro de 2009
Notícia boa
O meu Rumor da Casa é um dos três finalistas do prêmio Livro do Ano 2009, concedido pela AGES (Associação Gaúcha de Escritores). Fiquei surpresa com a notícia, pensando: "Como posso ser finalista se não me recordo de ter me inscrito?". Não há inscrição para o prêmio. Os livros são eleitos por indicação dos escritores associados. Na categoria Poesia, os finalistas, além do meu Rumor, são Prosa do Mar, de Marlon de Almeida; e Tramas de Orvalho, de Deise Beier. O prêmio destaca livros em todos os gêneros literários, em sete categorias. A premiação será no dia 12 de novembro.
Na maré das Morais
Foi a partir do poema abaixo que surgiu o título da atividade que farei amanhã na Tenda de Pasárgada, dentro da programação Padaria Espiritual, da 55ª Feira do Livro de Porto Alegre.
Claro, se nós pensarmos na tradição da literatura ocidental, é essa voz masculina que prepondera, por razões históricas que não me cumpre discutir. Agora, a lírica surgiu de onde? De uma voz feminina, a voz de Safo, na antiguidade cretense. Ela que, segundo Platão, entendia do amor das mulheres o que Sócrates entendia do amor dos homens.
Fundou a poesia amorosa. A mesma que enveredou por doçuras demasiadas e, na boca dos homens, não raro tratou o tema pela descrição do objeto de amor: a mulher, às vezes vista como um objeto, sim. O poema Receita de Mulher faz nada mais do que descrever uma mulher "ideal". Ele começa com o famoso verso "As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental" e a partir disso envereda para considerações sobre o corpo desta mulher ideal, magra, imperfeita e quase sem alma.
Eu detesto o texto de Vinicius de Morais e foi a partir de uma leitura dele que surgiu um poema que seria uma anti-receita de homem, se assim pudéssemos nos referir a pessoas. Meu poema, ineditíssimo, surgiu da célula "Não carece ser um bom marido / nem rico, nem belo, nem lido." Termina com "Aliás, não precisa ser lindo".
É sim uma resposta bastante crua e mal feita para o poema de Vinicius, e vou me aventurar a apresentá-lo amanhã, sim sim sim. Depois, é claro, de falar outros textos de autoria feminina que fazem uma boa contrapartida à lírica amorosa escrita pelos homens nos últimos séculos. Esses textos serão apresentados num eixo performático, de modo que a atividade terá dois momentos: um de fala sobre as tensões citadas acima e outro de performance. (Afinal, mais do que falar sobre poesia, importa falar e ouvir poesia.)
Minha performance pretende ser um pouco de mar no concreto da fala. Um sopro no ar esbaforido da quinta-feira, brisinha a abrandar o calor da Feira.
Um homem é um oco:
um foco em zona indefinida.
Um homem é um todo em partes,
partida.
Partido: um homem tem muitas certezas.
Não suporta dor de parto.
Tem barba, mau cheiro,
maus poemas.
Os homens gritam, pedem socorro,
mamadeiras,
sussurro e perdas.
Quem há de ser, quem há de vir,
quando a hora assombra?
Até tu, bruto, fugirá.
3 de novembro de 2009
Catarinenses na Feira do Livro

Foto Francine Canto. www.francinecanto.com
Tive a oportunidade de conhecê-los no período em que vivi em Florianópolis; sou fã das suas produções e também da postura que eles têm em relação à literatura. Santa Catarina é um estado culturalmente muito rico, cheio de conflitos, confusões e mistura de referências, como bem colocou o Dennis Radünz. Segundo ele, é um "estado alterado de consciência", e essa multiplicidade forma um cenário poético que nos dá boas lições nos quesitos de experimentação, abertura, fluidez, arejamento.
A composição da mesa representou bem esse cenário. Todos os quatro autores têm uma sólida carreira, articulada e bem desenvolvida. (O título da mesa, equivocado, não apresentou de maneira adequada os seus integrantes: "Novos autores/editores". Nenhum deles é autor de um livro só.)
Trabalham a literatura em várias frentes: são editores, produtores, oficineiros, empreendedores; assinam colunas, realizam pesquisas, organizam eventos; lêem, criticam e estimulam outros autores; enfim, são eles que constroem hoje um cenário em que essa pluralidade é desenvolvida de forma afirmativa. Também não têm papas na língua.
Dennis Radünz, autor de Exeus, Livro de Mercúrio e Extraviário, excelente performer da poesia falada, tem uma sólida experiência como oficineiro de literatura, através do SESC-SC. Hoje coordena a editora Lábias, que no passado se chamou Nauemblu e publicou, entre outros, História Natural de Sonhos, poemas do naturalista Fritz Müller co-traduzidos por Dennis e Lia Carmen Puff. Trabalha hoje na Fundação Franklin Cascaes, setor de Cultura da Prefeitura de Florianópolis, sem deixar de lado a criação literária. Autografa hoje na Feira, às 17:30, seu primeiro livro de prosas: Cidades marinhas solidões moradas.
Marco Vasques lançou ontem o site Poetas no Singular. Confiram. Ele se dedicou a realizar entrevistas com dezenas de poetas, para jornais catarinenses, e é responsável pelos três volumes Diálogos com a Poesia Brasileira, uma compilação de entrevistas com poetas do sul do país. Atualmente produz o último volume da coleção. Atua na Secretaria Estadual de Organização do Lazer.
Cristiano Moreira autografou ontem o livro O Calafate Míope, pela editora Papa Terra. Calafate é o trabalhador que faz a vedação dos barcos, e o livro navega entre as metáforas do rio (o Itajaí-Açu) e a escrita (da poesia, do mundo, de si). Ele conclui no momento mestrado na Ufsc e publicou, pela Bernúncia Editora, Rebojo.
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30 de outubro de 2009
Se eu fosse um jacarandá, tava roxa!

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A Clarissa, personagem emprestada de outro livro, renascida na intertextualidade, vem se comunicar comigo, fala, pede, introduz, media e permeia a história da Clara, a minha personagem principal. Clarissa foi adolescente nos anos 30. Clara, nos anos 90.
Ambas são personagens, mas a Clara lê a Clarissa e a Clarissa muito sabe sobre a Clara, também. Meu apê virou um alarido de vozes. Estão as duas, agora, metendo o bedelho neste post e dizendo que não é para eu falar mais nada.
Ok, já chega, eu me calo. Mas em março o romance estará pronto, e daí vocês vão ver. Oh, se vão!Gente, ainda bem que sou uma moça, porque se fosse um jacarandá, tava roxa!
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25 de outubro de 2009
Eu e elas
Eu caio do medo ao caos
e vejo os vultos escuros
das mulheres assombradas:
Sarah, Virginia, Ana C.
Clarice, é você atrás do galho?
ou sou eu que sussurro, em frangalhos;
somos nós: a vertigem e o soco.
As poetas que falam em mim (e nunca serão 'poetisas') parecem buscar ou partir do mesmo caroço: uma fala feminina que sangra, delicada e mortal - aquela voz que não faz sombra para a fala dos homens. Como elas falam em mim, o que eu falo delas: tudo o que assombra e é íntimo na criação, a raiva, o amor, o conflito da influência. Decidi transformar tudo isso em som e voz, que sairá toda de ímpeto e uma só vez, irrepetível. Eu e elas: uma conversa poética entre senhoras, para quem quiser ouvir.
Performance com apresentação de poemas originais e adulterados, efeitos sonoros e interação. Apresentação única.
29/10, às 19h30min,
na Saraiva do BarraShoppingSul.
Entrada franca, estão todos convidados.
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24 de outubro de 2009
23 de outubro de 2009
o tempo não corre:
escorre passado
por todos os poros.
Na casa do corpo
memória sozinha
no braço a cozinha
no teto o abraço.
Na casa, no corpo
no murro do sopro
há bocas de portas
abertas
veias e vínculos
muros e tímpanos
cortam o soco
pelo meio
cortam a sombra
pelo meio
cortam o assombro
pelo meio
esclarecimentos
põem cimento nos olhos
põem distância nos poros
dispõem
passados
cobres
Na cobra do corpo
há que fazer a curva
ainda que sobre
a culpa
19 de outubro de 2009
16 de outubro de 2009
Agrura em três vozes
Eu agüento. Com os olhos
bebo a cena, e minha boca
chora.
Nossa casa, nossa calma, a água levou.
Eu não falo, mas queria meu brinquedo.
E que mamãe não tivesse medo.
Eu bebo o ácido da água-forte.
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13 de outubro de 2009
Para melhorar a educação
http://www.senado.gov.br/sf/atividade/Materia/detalhes.asp?p_cod_mate=82166
Achei ótimo, e estou na torcida pela aprovação. Mais do que salutar para a educação pública.
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11 de outubro de 2009
Desaprendimento

Meus excessos criativos da época, se por um lado procuravam denunciar as asperezas do ambiente; por outro, tentavam uma relação com o gesto artístico, no que ele tem de essencial. Eram motivados pela fascinação que os livros sempre me causaram. Esse encanto me levou a sair de Lajeado aos dezessete anos, para estudar filosofia e literatura, aprender um pouco de lógica e muita teoria literária, ler Aristóteles, Kant, Descartes, Ezra Pound, Manuel Bandeira, Octavio Paz. Depois, a estudar Fernando Pessoa e Samuel Beckett, no mestrado. E ter vontade de dar oficinas literárias, circulando por cidades de Santa Catarina e do Rio Grande, carregando mala, falando poesia, fazendo performances, passando apertos, ganhando sorrisos, investigando as relações entre as artes. É o mesmo encanto que me faz hoje trabalhar para o SESC ou para a Bienal, e procurar motivar leitores, dividir um pouco da minha paixão, multiplicar.
Muitas pessoas talvez prefiram não se ver, ou temem se encontrar ali refletidas. Vence o sentido da aventura: para realizá-la é preciso não ter medo do desconhecido, e se deixar levar pelo fascínio da viagem. A riqueza do que foi possível experimentar vale mais do que o medo. E quem não se conhece tem menos possibilidades de viver integralmente suas alegrias. Tapa o sol com a peneira (da razão, dos compromissos, de um carro novo, das aparências) e perde o melhor: o prazer, o encanto da viagem, as histórias para contar.
Foi um pouco disso que falei na manhã de abertura da Feira do Livro de Lajeado, para estudantes do ensino médio de duas escolas. Simples e educativo. Habitei as duas, quando era um pouco (não muito) mais nova e morava ainda na cidade natal. É uma satisfação ver as professoras Judites (são duas, mas cada uma vale por vinte) incentivando seus alunos da mesma forma como me incentivaram, na época. E as alunas de hoje, mais risonhas do que eu era. E eu, simultaneamente sentada à minha frente e me ouvindo, pude me ver escorregando, rindo, levando susto, e me virando do avesso, também.
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No picadeiro com Alexandre Brito
Entre no blog do poeta aqui.
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Direto da Praça Matriz
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2 de outubro de 2009
Foi lá no Castelinho, um colégio estadual, onde me incentivaram a ler Wilde, escrever poemas e estudar filosofia. Convivi com os colegas que vinham da zona rural, da periferia urbana, e do centro da cidade; conheci preconceitos, abusos, solidariedade, conheci estilo, maneiras de se portar, epifanias, Deus, construção de texto. Sim. Tudo isto e mais o resto que talvez o tempo dirá, ou tornará mais claro.
Sempre me pareceu que a ambiência da colonização alemã e italiana (a mesma da dureza e da frieza, sim) proporcionou um bom encalço para as coisas do pensamento e da cultura. Ou pelo menos foi essa a minha vivência, filha de um músico e uma professora de português.
As trocas de livros entre amigos, as aulas de violino e violão, as pesquisas do historiador, as apresentações da orquestra, tudo isso habita o cotidiano da cidade. Essa tendência talvez seja uma característica ainda inconsciente de si e pouco valorizada coletivamente. Algo sub-reptício, ou tão óbvio que se torna transparente. É preciso aguçar o olhar para ver certas coisas.
E agora me vejo aqui, em uma nova Lajeado; doze anos depois de ter saído, voltando: fazendo parte do lugar, com os pés muito no chão, e a cabeça muito nas nuvens (como também convém a uma escritora), ou seja: equilibrada, por que não?
Vou divulgar por aqui algumas das coisas bacanas que descubro e redescubro nas lajes lajeadeneses, então aguardem novos posts.
(Peço desculpas pela ausência de espaços para comentário, sigo respondendo sempre no telmascherer@gmail.com)
27 de setembro de 2009
Três cenas e uma constatação
Primeira cena:
- Não há mais nada que inventar. - Eu sorrio convidativa e ele se aproxima. - Sim, não há mais nada que inventar. Depois que o Piazzolla fez isso! - E ele toca o tema, demonstrando. - Não acha? Tem muita coisa bonita.
Eu concordo. Ele não tira o instrumento do colo, e vai explicando alguns detalhes do abrir, do fechar, da maneira de executar as notas. Lá pelas tantas, faz uma escala completa e diz:
- Vê bem, são só doze notas. Com essas doze, já fizeram tudo. E tem gente que ainda quer fazer algo novo. Pra que algo novo? - E ele continua mostrando temas irretocáveis, feliz, agradecido.
Segunda cena:
- É por isso que tem aquilo que o Haroldo de Campos falou, do pós-tudo. Ou foi o Décio Pignatari? Não lembro. Mas é isso, é assim, depois da poesia concreta, não tem mais o que inventar.
- E aqueles lances de poesia sonora? - Emenda o outro, com voz pausada - Tirar completamente o significado do jogo e ficar só com os sons das palavras. Vê bem: é uma experiência radical.
Eu adoro a poesia sonora e quero continuar nesse assunto, mas o primeiro continua:
- É isso que eu tou querendo dizer, entende? Os caras já fizeram tudo, nós viemos depois. O máximo que podemos fazer é um uso competente da linguagem.
Eu penso. Ele continua:
- A gente pode se esforçar ao máximo, mas tudo o que a gente fizer, sempre alguém já vai ter feito, meu. A gente veio depois.
- Ah! - sorri o outro, faceiro - lembrei de um poeminha do Quintana, que diz assim: Os clássicos escreviam tão bem porque não tinham os clássicos pra atrapalhar.
Rimos todos os três, à larga, e sorvemos goles bem demorados, refletindo.
- É... - sentencia o mesmo, conformado: - São séculos de tradição, meu nego.
- Séculos! Dois milênios - se ri o outro.
Eu observo.
Terceira cena:
Um afeto chega em minha casa muito cansado e sorridente. Antes de deixar a mochila em um canto, ele a abre, tira um CD e me alcança:
- Olha isso aqui, Telma. Trouxe pra te mostrar. - Eu coloco o CD no aparelho e, aos primeiros acordes, arregalo meus olhos ao máximo, embevecida.
- Que é isso? - pergunto. Um piano me leva por uma estrada ensolarada, e uma flauta passa voando, como um passarinho. Tudo muito harmonioso, leve, quente. Ele diz:
- Sabia que tu ia gostar. Achei em um balaio. É mineiro. O filho do Milton Nascimento canta.
- É mesmo? - pergunto eu, agraciada. Começo a analisar o encarte, onde descubro que o disco é do compositor Flávio Henrique, autor de todas as canções, e se chama Primeiras Estórias, mesmo título do famoso livro de contos de Guimarães Rosa.
As canções não se encalçam nas estórias dos contos, nem dependem delas; ao mesmo tempo, transpõem com eqüidade o mesmo clima daquele sertão, e propõem uma viagem por paisagens áridas, líricas, cheias de significados.
Reconheço uma canção de um disco do Paulinho Pedra Azul, e logo vem este cantá-la, no disco desconhecido.
- Ah! Eu jurava que essa música era do Paulinho Pedra Azul.
O que o disco de Flávio Henrique comunga com o livro é o seu jeito fino, sofisticado. Uma extrema competência, sim, no uso das linguagens (a musical, a literária).
Olho mais de perto a foto do compositor e levo um choque:
- Mas é um guri! - digo, quase num grito. Meu afeto se aproxima e dá uma gargalhada:
- Se é, não sei, mas parece ter uns vinte anos.
Lemos juntos o texto do encarte, escrito pelo diretor musical (Sérgio Santos, experiente comparsa do Clube da Esquina), de onde destaco este trecho:
"Muito papel já se gastou nesses tempos ávidos por modas e ondas para, em nome de uma suposta modernidade, se decretar a falência da música brasileira e a ausência de novos talentos, em particular de novos compositores. Nunca me pareceu que a vida pudesse ser desigual com as gerações. Se ela foi tão pródiga com as passadas, não seria lógico que perdesse a generosidade para com os brasileiros com menos de trinta."
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Fala de um leitor em um debate:
25 de setembro de 2009
17 de setembro de 2009
Grito e escuta: Poesia, silêncio e performance
Durante três semanas, sob o nome de Índices e Anotações, uma série de atividades vai acontecer nos espaços do Santander Cultural. Confira a programação completa.
Minhas oficinas acontecerão aos domingos:
Dias 20 e 27 de setembro
das 14h às 17h.
Os encontros terão um momento teórico e um momento prático. Leitura de textos e apresentação de referências deverão compor o instrumental teórico. O momento prático será dedicado à realização de exercícios de criação. Cada participante terá a oportunidade de experimentar criar a sua mini performance de poesia.
Informações através do e-mail projetopedagogico@
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14 de setembro de 2009
Ach, du!

Parque Histórico de Lajeado. Foto de família.
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É um documentário realizado com poucos recursos e um bom tema: a diversidade lingüística e cultural de um lugarejo do interior do Rio Grande do Sul, chamado Berlim. Fica bem próximo das minhas origens lajeadenses, é fato. E de assalto acaba trazendo à tona reflexões interessantes. O filme é composto de depoimentos falados em português, alemão e principalmente nos dialetos derivados da língua alemã, que estão hoje em franco desaparecimento.
Só os velhos os falam. A vó Elza, personagem real do meu Rumor da Casa, por óbvio, sabia bem. Aprendeu português quando os filhos foram para a escola. A custo e por obrigação: por causa da guerra. Não se podia falar a língua que esses imigrantes trouxeram junto com a sua miséria e seu obstinado, cruento orgulho. Quem falasse, fosse pego, parava na cadeia. Silêncio, medo, vergonha. Passada a guerra, tudo mudado, aquele silêncio se tornou subcutâneo. Todos foram aprendendo português. Ainda assim, a linguagem misturada ainda é amplamente praticada por aquelas bandas.
Vó Elza só falava alemão com seus gatos e com as vizinhas, suas comadres. Entre sorrisos, elas nos olhavam e entre si trocavam impressões às quais não tínhamos acesso. Uma curiosidade que media distância e poder entre gerações.
As diretoras do filme, como eu e outros jovens dessa região e de tantas outras, imagino que não aprenderam a se exprimir nos dialetos. São línguas diferentes do alemão gramatical, criadas aqui. As moças agora voltam um olhar ativo, procurando mostrar ao mundo essas diferenças, marcas, e peculiaridades, porque todos somos iguais. Mandaram bem.
A minha motivação criativa também aponta para dentro, para o passado, e para o interior do estado. No romance que ora gesto, as diferenças, tensões, descobertas desse multiculturalismo fazem parte do pano de fundo onde vivem as personagens. Durante a infância, pelas ruas, muito ouvi os dialetos e seus derivados sotaques, repreendidos e até corrigidos na escola em um laboratório de fonética.
Durante um período, a gente pode negar, criticar, ir pra bem longe, e até se revoltar com as origens, seus preconceitos, sua carga de sofrimentos. Faz parte. Esse é, entretanto, o material que conhecemos, do qual podemos falar com propriedade. Então todo passado vira uma riqueza infinita. Agora é o momento de retomar: de olhar para trás e ver o que de interessante, de belo, de especial há naquele ponto perdido na geografia, mas cravado no peito, como uma espada.
*
9 de setembro de 2009
O riso do choro

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A poeta Telma admirou o músico inspirado e colheu motivação para algumas criações verbais, à moda da tradição do choro.
São remarcáveis as possibilidades poéticas da sua figura criativa ao bandolim. Suas composições recolhem da tradição o que importa e refazem os caminhos seguindo a lição do mestre Bashô: "Não imite os antigos, procure o que eles procuraram".
Quinta estaremos juntos na Saraiva do BarraShopping. Vou apresentar alguns poemas simples, fortes, líricos, da tradição: o Caso do Vestido (Drummond), os Três Mal-Amados (Cabral), diversas faceirices do Bandeira e até um Pessoa (Pessoa ele mesmo) muito musical e simbolista, do Cancioneiro.
Ao lado desses mestres, falar poesia fica fácil - pra chorar ou sorrir, melhor é estar perto da canção.
*
Na cor dos acordes
No corpo do som
Elias
Tem os braços dados
Com um bandolim
Ele compõe abraços
Entre as estrelas
Estréia
no breu
um clarim
Se acaso as mãos frias
Se os olhos cerrados
Se no rosto ar de choro
é puro gozo:
Céu
por detrás
das cortinas
Véu
que afasta as
neblinas
Gosto de vê-lo
nos braços da lua:
prece sem pressa
simples assim:
um choro, um bandolim.
4 de setembro de 2009
Carta aberta ao Sr. Inspetor

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Monsieur Anônimo:
Que encanto pode ser doce por trás dessa fria muralha - que sou eu, Srta. Scherer; que é você, Sr. Inspetor?
Sr. Anônimo, o meu paraíso está dentro da sua cabeça. Abra-se para si mesmo e veja.
*



